Pioneira da dança, Hou Ying encaixa-se no estrito grupo de criadores que conquistaram públicos no país e no exterior. Fazendo uma antevisão da sua estreia em Macau, pintámos um breve retrato de uma figura que se coloca confortavelmente entre as coreógrafas mais sofisticadas e inovadoras da China.

Hou Ying: saltos e piruetas de uma mente criativa

Os que estão familiarizados com o mundo da dança contemporânea na China certamente que já ouviram falar de Hou Ying. A bailarina tornada coreógrafa é produto de uma geração de artistas forjada há algumas décadas, quando esta forma de arte se começou a expandir e expressar no país.

Os primeiros pulos

Nascida em Jilin, a sua graciosidade e queda para a dança foi notada em tenra idade, tinha sete anos. Ao completar 12 primaveras, graças à persistência de um professor de música, a menina entra na Universidade de Artes da sua cidade natal, onde ao longo de sete anos estudou dança tradicional, antes de dar um primeiro grande passo rumo ao profissionalismo na Companhia Artística da Polícia de Pequim. Procurando evoluir, almejando muito além da prática tradicional de artes marciais e ballet, aos 23 anos Hou decide partir rumo ao Sul e ingressa na Companhia  de Dança Moderna de Guangdong, a primeira trupe  profissional do género. A decisão surge de uma nova vontade de mudança de percurso artístico, uma procura de novos horizontes. E a aventura ainda estava no início.

Em 2001, a carreira de Hou Ying conheceu novo ponto de viragem depois de ter obtido uma bolsa do Fundo Asiático de Cultura para estudar nos Estados Unidos. Tendo-se mudado para Nova Iorque para aprender com o prestigiado coreógrafo sino-americano Shen Wei, tornou-se bailarina principal da companhia, subindo regularmente aos palcos do Centro Lincoln, integrando e colaborando em peças como A Sagração da Primavera ou Escada para o Céu. A nova realidade e atmosfera criativas tiveram um grande impacto na forma como Hou passou a sentir e a pensar a dança. Confrontada com as novas ideias que fervilhavam na cidade, influenciada por criadores pós-modernos como Merce Cunningham ou Trisha Brown, e incentivada por um novo tipo de público, as suas preocupações mudaram. Uma vez que a fisicalidade se tornara no novo foco, a criadora entregou-se ao corpo enquanto objecto de estudo tendo ganho reconhecimento como “a bailarina dos traços perfeitos”.  Depois de ter sido nomeada Bailarina Revelação de 2004 pelo jornal New York Times, a carreira de Hou sofreu nova mudança abrupta, consequência de uma infeliz lesão que parcialmente lhe retirou protagonismo.

1- Yang RuiXD
Hou Ying
Regresso a casa

Reciclada por uma série de novas ideias e influências, a coreógrafa regressou à China, onde tirou o melhor partido da experiência acumulada para fundar a sua própria companhia, a Dança Teatro Hou Ying. O regresso foi sentido como o retomar de um caminho que há muito deixara para trás. Tal como revelou certa vez, “20 anos depois de ter partido, no retorno vim encontrar o mesmo público, que aqui manteve viva a memória do meu último espectáculo”.

O estabelecimento da companhia trouxe consigo uma consistente concepção e encenação de trabalhos arrojados e independentes, tais como Tutu, Ran e Acidente. Tal produtividade resultou num maior reconhecimento de Hou no país, colocando-a finalmente entre o grupo restrito de mentes coreográficas contemporâneas em destaque no continente chinês, junto a nomes como o da pioneira coreógrafa e apresentadora de televisão Jin Xing (cujo trabalho foi aqui apresentado tanto no Festival de Artes como no de Música), a conhecida Yang Liping (cuja obra-prima O Cerco subiu à cena no CCM em 2019) ou Tao Ye, coreógrafo inovador sediado em Pequim (convidado do Festival de Artes de Macau em 2016).

O estabelecimento da companhia trouxe consigo uma consistente concepção e encenação de trabalhos arrojados e independentes, tais como Tutu, Ran e Acidente. Tal produtividade resultou num maior reconhecimento de Hou no país, colocando-a finalmente entre o grupo restrito de mentes coreográficas contemporâneas em destaque no continente chinês, junto a nomes como o da pioneira coreógrafa e apresentadora de televisão Jin Xing (cujo trabalho foi aqui apresentado tanto no Festival de Artes como no de Música), a conhecida Yang Liping (cuja obra-prima O Cerco subiu à cena no CCM em 2019) ou Tao Ye, coreógrafo inovador sediado em Pequim (convidado do Festival de Artes de Macau em 2016).

Abrindo horizontes

Embora o ímpeto criativo de Hou Ying tenha inequívocos pontos comuns com alguns dos seus compatriotas criadores de dança, a coreógrafa desenvolveu naturalmente uma identidade e estilo criativo próprio. Consistentemente aberta a novas ideias, bebendo inspiração de uma diversidade de fontes, Hou é ainda uma confessa admiradora do génio clássico de George Balanchine e do misticismo de Pina Bausch, para quem olha como mentores. Os seus trabalhos foram, no entanto, evoluindo para além dessas influências. Hou foi-se tornando gradualmente adepta da ideia que liga intrinsecamente a dança a outras formas de arte moderna, estando a sua linguagem e fundamentos conexos a uma reflexão sobre o momento presente, ligando os bailarinos com o tempo em que vivem.

Estreia em Macau

Tal perspectiva conceptual é vincadamente representada no palco em Percursos, a peça que a sua companhia traz ao CCM em Março. Quando lhe pediram para descrever o espectáculo, Hou revelou que o trabalho explora os “inesgotáveis e intermináveis desejos humanos”, que se reflectem, por exemplo, no desesperado desejo de viver intensamente buscando mais riqueza. Sentindo que por si só, a dança já não expressava as suas ideias na plenitude, a coreógrafa utilizou em palco vídeo e instalações, convidando músicos a criarem música experimental. Movendo-se ao som de ritmos electrónicos, um elegante grupo de bailarinos utilizam o corpo de forma precisa, executando movimentos abstractos, por vezes robóticos, explorando vigorosamente o desejo, sensualidade e auto-reflexão. A peça sumariza a interminável, e por vezes fútil repetição da vida contemporânea, expondo o absurdo incompreensível do consumo e do desfiar de imagens digitais. Em pano de fundo, o cenário do espectáculo é adornado por projecções a preto e branco que por vezes são entrecortadas por numerosas faixas de tecido elástico suspensas, ao mesmo tempo ligando e separando os bailarinos a esse mundo encenado que é representado em palco. Estes laços materiais e físicos podem ser vistos como extensões, ligações metafóricas que convidam à reflexão, urgindo o público a sopesar a importância das suas necessidades contra desejos excessivos. Como descobriremos em breve, estas poderão ser, no limite, as grandes intenções de Hou Ying.

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Pioneira da dança, Hou Ying encaixa-se no estrito grupo de criadores que conquistaram públicos no país e no exterior. Fazendo uma antevisão da sua estreia em Macau, pintámos um breve retrato de uma figura que se coloca confortavelmente entre as coreógrafas mais sofisticadas e inovadoras da China.

Hou Ying:
saltos e piruetas de uma mente criativa

Os que estão familiarizados com o mundo da dança contemporânea na China certamente que já ouviram falar de Hou Ying. A bailarina tornada coreógrafa é produto de uma geração de artistas forjada há algumas décadas, quando esta forma de arte se começou a expandir e expressar no país.

Os primeiros pulos

Nascida em Jilin, a sua graciosidade e queda para a dança foi notada em tenra idade, tinha sete anos. Ao completar 12 primaveras, graças à persistência de um professor de música, a menina entra na Universidade de Artes da sua cidade natal, onde ao longo de sete anos estudou dança tradicional, antes de dar um primeiro grande passo rumo ao profissionalismo na Companhia Artística da Polícia de Pequim. Procurando evoluir, almejando muito além da prática tradicional de artes marciais e ballet, aos 23 anos Hou decide partir rumo ao Sul e ingressa na Companhia  de Dança Moderna de Guangdong, a primeira trupe  profissional do género. A decisão surge de uma nova vontade de mudança de percurso artístico, uma procura de novos horizontes. E a aventura ainda estava no início.

Em 2001, a carreira de Hou Ying conheceu novo ponto de viragem depois de ter obtido uma bolsa do Fundo Asiático de Cultura para estudar nos Estados Unidos. Tendo-se mudado para Nova Iorque para aprender com o prestigiado coreógrafo sino-americano Shen Wei, tornou-se bailarina principal da companhia, subindo regularmente aos palcos do Centro Lincoln, integrando e colaborando em peças como A Sagração da Primavera ou Escada para o Céu. A nova realidade e atmosfera criativas tiveram um grande impacto na forma como Hou passou a sentir e a pensar a dança. Confrontada com as novas ideias que fervilhavam na cidade, influenciada por criadores pós-modernos como Merce Cunningham ou Trisha Brown, e incentivada por um novo tipo de público, as suas preocupações mudaram. Uma vez que a fisicalidade se tornara no novo foco, a criadora entregou-se ao corpo enquanto objecto de estudo tendo ganho reconhecimento como “a bailarina dos traços perfeitos”.  Depois de ter sido nomeada Bailarina Revelação de 2004 pelo jornal New York Times, a carreira de Hou sofreu nova mudança abrupta, consequência de uma infeliz lesão que parcialmente lhe retirou protagonismo.

Hou Ying
Regresso a casa

Reciclada por uma série de novas ideias e influências, a coreógrafa regressou à China, onde tirou o melhor partido da experiência acumulada para fundar a sua própria companhia, a Dança Teatro Hou Ying. O regresso foi sentido como o retomar de um caminho que há muito deixara para trás. Tal como revelou certa vez, “20 anos depois de ter partido, no retorno vim encontrar o mesmo público, que aqui manteve viva a memória do meu último espectáculo”.

O estabelecimento da companhia trouxe consigo uma consistente concepção e encenação de trabalhos arrojados e independentes, tais como Tutu, Ran e Acidente. Tal produtividade resultou num maior reconhecimento de Hou no país, colocando-a finalmente entre o grupo restrito de mentes coreográficas contemporâneas em destaque no continente chinês, junto a nomes como o da pioneira coreógrafa e apresentadora de televisão Jin Xing (cujo trabalho foi aqui apresentado tanto no Festival de Artes como no de Música), a conhecida Yang Liping (cuja obra-prima O Cerco subiu à cena no CCM em 2019) ou Tao Ye, coreógrafo inovador sediado em Pequim (convidado do Festival de Artes de Macau em 2016).

Abrindo horizontes

Embora o ímpeto criativo de Hou Ying tenha inequívocos pontos comuns com alguns dos seus compatriotas criadores de dança, a coreógrafa desenvolveu naturalmente uma identidade e estilo criativo próprio. Consistentemente aberta a novas ideias, bebendo inspiração de uma diversidade de fontes, Hou é ainda uma confessa admiradora do génio clássico de George Balanchine e do misticismo de Pina Bausch, para quem olha como mentores. Os seus trabalhos foram, no entanto, evoluindo para além dessas influências. Hou foi-se tornando gradualmente adepta da ideia que liga intrinsecamente a dança a outras formas de arte moderna, estando a sua linguagem e fundamentos conexos a uma reflexão sobre o momento presente, ligando os bailarinos com o tempo em que vivem.

Estreia em Macau

Tal perspectiva conceptual é vincadamente representada no palco em Percursos, a peça que a sua companhia traz ao CCM em Março. Quando lhe pediram para descrever o espectáculo, Hou revelou que o trabalho explora os “inesgotáveis e intermináveis desejos humanos”, que se reflectem, por exemplo, no desesperado desejo de viver intensamente buscando mais riqueza. Sentindo que por si só, a dança já não expressava as suas ideias na plenitude, a coreógrafa utilizou em palco vídeo e instalações, convidando músicos a criarem música experimental. Movendo-se ao som de ritmos electrónicos, um elegante grupo de bailarinos utilizam o corpo de forma precisa, executando movimentos abstractos, por vezes robóticos, explorando vigorosamente o desejo, sensualidade e auto-reflexão. A peça sumariza a interminável, e por vezes fútil repetição da vida contemporânea, expondo o absurdo incompreensível do consumo e do desfiar de imagens digitais. Em pano de fundo, o cenário do espectáculo é adornado por projecções a preto e branco que por vezes são entrecortadas por numerosas faixas de tecido elástico suspensas, ao mesmo tempo ligando e separando os bailarinos a esse mundo encenado que é representado em palco. Estes laços materiais e físicos podem ser vistos como extensões, ligações metafóricas que convidam à reflexão, urgindo o público a sopesar a importância das suas necessidades contra desejos excessivos. Como descobriremos em breve, estas poderão ser, no limite, as grandes intenções de Hou Ying.

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